Hit the world road

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Apenas conhecemos fragmentos dos outros

Quando te encontras na base de um importante maciço montanhoso, estás longe de conhecer toda a sua diversidade, não tens nenhuma ideia das alturas que se ergueram por trás do seu cimo ou por trás daquele que te parece ser o cimo, não suspeitas nem o perigo dos abismos nem os confortáveis assentos ocultos entre os rochedos. É apenas se sobes e se persegues o teu caminho que se revelam pouco a pouco aos teus olhos os segredos da montanha, alguns que esperavas, outros que te surpreendem, uns essenciais, outros insignificantes, tudo isso sempre e unicamente em função da direcção que tomares; e nunca te revelarão todos.

O mesmo acontece quando te encontras diante de uma alma humana.

Aquilo que se te oferece ao primeiro olhar, por mais perto que estejas, está longe de ser a verdade e certamente nunca é toda a verdade. É apenas no decurso do caminho, quando os teus olhos se tornam mais penetrantes e nenhuma bruma perturba o teu olhar, que a natureza íntima dessa alma se revela a pouco a pouco e sempre por fragmentos. Aqui é a mesma coisa: à medida que te afastas da zona explorada, toda a diversidade que encontraste no caminho se esbate como um sonho, e quando te voltas uma última vez antes de te afastares, vês apenas de novo esse maciço que te surgia falsamente como muito simples, e esse cimo que não era o único que existia.
Apenas a direcção é realidade; o objectivo é sempre ficção, mesmo quando alcançado - sobretudo neste caso.


Arthur Schnitzler, in 'Observação do Homem'

domingo, 24 de julho de 2011

Considerações - Agostinho da Silva

Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento.
Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflitamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita.
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Na busca da filosofia - Sabedoria de Confucio

A Verdadeira Natureza Humana

A humildade fica perto da disciplina moral; a simplicidade de carácter fica perto da verdadeira natureza humana; e a lealdade fica perto da sinceridade de coração. Se cultivarmos cuidadosamente essas regras na nossa conduta, não estaremos longe do padrão da verdadeira natureza humana. Com a humildade, ou uma atitude piedosa, raramente cometemos erros; com a sinceridade de coração, somos geralmente dignos de confiança; e com a simplicidade de carácter seremos comummente generosos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Séneca - Filósofo que viveu no ano 4 AC, mas tão actual

Ninguém é feliz quando treme pela sua felicidade. Não se apoia em bases sólidas quem tira a sua satisfação de bens exteriores, pois acabará por perder o bem-estar que obteve. Pelo contrário, um bem que nasce dentro de nós é permanente e constante, e vai sempre crescendo até ao nosso último momento; todos os demais bens ante os quais se extasia o vulgo são bens efémeros. "E então? Quer isso dizer que são inúteis e não podem dar satisfação?" É evidente que não, mas apenas se tais bens estiverem na nossa dependência, e não nós na dependência deles. Tudo quanto cai sob a alçada da fortuna pode ser proveitoso e agradável na condição de o seu beneficiário ser senhor de si próprio em vez de ser servo das suas propriedades. É um erro pensar-se

que a fortuna nos concede o que quer que seja de bom ou de mau; ela apenas dá a matéria com que se faz o bom e o mau, dá-nos o material de coisas que, nas nossas mãos, se transformam em boas ou más.

O nosso espírito é mais poderoso do que toda a espécie de fortuna, ele é quem conduz a nossa vida no bom ou no mau sentido, é nele que está a causa de nós sermos felizes ou desgraçados. Um homem mau faz tudo redundar em mal, mesmo quando aparentemente as coisas se apresentavam excelentes; um espírito justo e íntegro sabe corrigir os erros da fortuna, sabe, pela sua mesma sabedoria, temperar as ocorrências adversas e difíceis de suportar; um tal espírito é capaz de acolher a felicidade com gratidão e temperança, de enfrentar a adversidade com firmeza e coragem. Imaginemos um homem experiente, que não faz nada sem ter analisado totalmente a questão, que nunca tenta nada que esteja acima das suas forças: tal homem nunca alcançará aquele supremo e completo bem acima de todas as contingências se não se sentir seguro em face da insegurança. Se observares os outros (já que costumamos ser melhores juízes em causa alheia), ou se te analisares a ti próprio sem parcialidade, serás forçado a admitir que aqueles bens que tens por desejáveis e preciosos te serão inúteis se previamente não te preparares para a falibilidade do acaso e do condicionalismo que o acompanha.

domingo, 10 de julho de 2011

Sabedoria e Alegria - Séneca in "Cartas a Lucilio"

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que não és ainda um sábio. O sábio autêntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturbável; vive em pé de igualdade com os deuses. Analisa-te então a ti próprio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperança te aflige o ânimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mantém igual a si mesma, isto é, plena de elevação e contente de si própria, então conseguiste atingir o máximo bem possível ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, não buscas senão o prazer, fica sabendo que tão longe estás da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falharás o alvo se pensas vir a alcançá-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso será o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da angústia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfação e prazer, são apenas motivos para futuras dores.

Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfação das ambições, na multidão assídua dos clientes; outros, na posse de uma amante; outros, enfim, na inútil vanglória dos estudos liberais e de um culto improfícuo das letras. Toda esta gente se deixa iludir pelo que não passa de falaccioso e breve contentamento, tal como a embriaguez, que paga pela louca satisfação de um momento o tédio de horas infindáveis, tal como os aplausos de uma multidão entusiasmada - aplausos que se ganham e se pagam à custa de enormes angústias! Pensa bem, portanto, no que te digo: o resultado da sabedoria é a obtenção de uma alegria inalterável. A alma do sábio é semelhante à do mundo supralunar: uma perpétua serenidade. Aqui tens mais um motivo para desejares a sabedoria: alcançar um estado a que nunca falta a alegria. Uma alegria assim só pode provir da consciência das próprias virtudes: apenas o homem forte, o homem justo, o homem moderado pode ter alegria.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Vivo num edificio baixo e tenho o temperamento em lume brando.
Ando a vida a pé e os meus horizontes alargaram-se.
Gasto menos, tenho mais. Compro menos, desfruto sempre.
Tenho casa pequena, mas familia maior, com mais conforto e com mais tempo.
Cada vez mais conhecimentos inuteis e menos certezas sobre os outros.
Não tento julgar ninguém e cada vez quero perceber menos a natureza humana.
Os perito e os problemas só são chamados em tempos de crise e são bem pagos.
A Medicina e o bem-estar vêm de nós, não de fora.
Bebo pouco e nem fumo.
Não desperdiço uma gargalhada nem uma lágrima a mais.
Movo-me ao ritmo dos tempos e irrito-me num mundo tão rápido, com a lentidão dos que me cruzam a vida.
Amanheço a pensar nos outros e por isso, adormeço cansada.
Leio menos porque os olhos não querem, não vejo TV porque a vida não precisa de tanta confirmação, mas medito sobre o que falhei e onde não quero voltar.
Não guardo património, nem rancor, mas não desisto dos meus principios.
Tento viver a vida sem esperar muito materialmente em troca.
Já fui inumeras vezes à lua e conheço alguns marcianos na terra.
Conquisto o meu espaço interior e não interfiro na decoração exterior alheia.
Tenho feito algumas coisas louváveis, mas não pretendo ser a unica.
Limpo diáriamente a minha alma, mas vivo bem sem aspirador.
Conquisto uma minoria, mas incomodo os preconceituosos.
Desaprendo todos os dias, no mau sentido.
Desisti de planear o futuro, dava-me ansiedade.
Sei esperar, mas a vida é demasiado curta.
A informática serviu para bisbilhotar vidas alheias mais depressa.
Comida rápida, heróis com pés de barro,reconhecimento póstumo,fortunas colossais e comportamentos socialmente perfeitos dão-me colesterol alto e taquicardia.
Viagens mundiais e hotéis luxuosos não dão sempre direito a jaccuzzi.
Moral solúvel, comprimidos para se amar e modas descartáveis nem sempre fazem efeito. Nem secundário.
Admiro-me, luto, sigo em frente, passo a maior tempo possivel com quem me ajuda a construir a felicidade e quem me quer.
Sou paciente com os atrasos, amável com os perdidos,tolerante com os achados.
Amo sem esperar ser amada. Porque amar é recomeçar tudo, todos os dias, se assim for preciso. Em nosso nome e em nome dos outros.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Angola e quase a acabar

A viagem desde Portugal correu bem e pareceu-me curta por ser de noite, por ser tão perto, por estar tão contente de voltar a Angola.

Cheguei. Assim que sai do avião, um calor que cola à pele, humido, mas saboroso para mim.

Ainda sem sair do aeroporto, e já me tinham tentado tirar gasosa, suborno, eu sei lá...a troco de favores, de empurrar mala, de dar indicações de caminho. Começei logo a sorrir. A mim, não. Não me enganam. Eu conheço o estilo, o género, a ousadia. Sorri.

E assim que se põe o pé na rua, um mar de gente colorida, asfalto rebentado, transito caótico e algum lixo....África no seu pleno.

As acácias enormes rasgam o chão e estendem os ramos para o céu cheias de flores, os peões atropelam os carros, a vida pulsa a cada esquina...

Estranhamente, vêem-me à memória algumas referências visuais: a Marginal, a Igreja da Sagrada Família, um reclame de neón ainda no topo de um prédio.

Mergulho devagarinho numa parte da minha infância. Estou feliz. Espero que o tempo aqui corra devagarinho para eu poder saborear tudo.




Pois é. Quase a acabar. Por mais que os dias pareçam compridos, acorde cedo e me deite tarde, o tempo voa e cada dia me parece curto.

País grande, população maciça e eu a navegar no meio desta mistura de côr, calor, humidade e humanidade.

Sabe bem estar cá e arrumar mais um bocadinho do passado no sítio certo da minha memória, percorrer o horizonte vasto, cheirar poeira da estrada cor de tijolo batida a tempestade curta que molha e foge.

Em Luanda, a confusão do desassossego e a desarrumação de gente que se mexe, sobrevive, nascendo, vivendo e morrendo ao sabor das horas, dos dias e das noites.

Fora da capital, a paisagem a perder de vista numa vertigem de espaço tão grande, tão imenso que só apetece mergulhar e ficar mesmo por ali.

São quitandeiras, candongueiros, baleizeiros, kinguilas e kazukuteiros, mas também bessanganas, nkankeiros, xaxeiros, dredas e duchas.E mais um enorme vocabulário local que ou se entranha ou se estranha.

E é o funje, a mandioca, o kaombo, o bombó, comida boa e tão diferente.

E para acabar o porte desta gente: trato afável, educado, curioso.

E eu a guardar tudo, por dentro, devagarinho, para poder continuar a saborear mais tarde, qual criança que lambe um rebuçado e volta a embrulhar no papel para mais tarde, com mais calma e tempo, saborear melhor.