Hit the world road

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Viva o novo riquismo linguistico!

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos 'afro-americanos', com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!


As criadas dos anos 70 passaram a 'empregadas domésticas' e preparam-se agora para receber a menção de 'auxiliares de apoio doméstico' .

De igual modo, extinguiram-se nas escolas os 'contínuos' que passaram todos a 'auxiliares da acção educativa'.

Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por 'delegados de informação médica'.

E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em 'técnicos de vendas '.

O aborto eufemizou-se em 'interrupção voluntária da gravidez';

Os gangs étnicos são 'grupos de jovens'

Os operários fizeram-se de repente 'colaboradores';

As fábricas, essas, vistas de dentro são 'unidades produtivas'e vistas da estranja são 'centros de decisão nacionais'.

O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à 'iliteracia' galopante.

Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes 'Conforto' e 'Turística'.

A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...» ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.

Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um 'comportamento disfuncional hiperactivo'

Do mesmo modo, e para felicidade dos 'encarregados de educação' , os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, 'crianças de desenvolvimento instável'.

Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado 'invisual'. (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos - mas o 'politicamente correcto' marimba-se para as regras gramaticais...)

As putas passaram a ser 'senhoras de alterne'.

Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em 'implementações', 'posturas pró-activas', 'políticas fracturantes' e outros barbarismos da linguagem.

E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.

Estamos lixados com este 'novo português'; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma 'politicamente correcta'.

Boa semana

sábado, 19 de setembro de 2009

Há quase um mês sem escrever e hoje estou cheia de preguiça de pensar

Morre lentamente, Pablo Neruda




Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar, morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida a fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.

Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio pleno de felicidade!!!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Crise

"A crise é a melhor benção que pode acontecer às pessoas e aos países, porque a crise traz progressos. Não pretendemos que as coisas mudem, se fizermos sempre o mesmo.
A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar "superado". Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, violenta o seu próprio talento e respeita mais os problemas que as soluções. A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la."

Uff! Ainda bem que este pensamento foi escrito por Albert Einstein! Embora continue a não perceber a teoria da relatividade, já não me sinto tão só na minha busca pelo trabalho duro....porque isto de ter talento é dificil quando se tem capacidade para muito (e pelos vistos, ninguém procura ninguém assim para empregar), e pelos vistos não estava errada quanto à agonia e rotina que fazem parte da alma lusitana.

Deuses do mérito e dos desafios, dai-me forças para acabar este longo mês de Agosto e enfrentar o próximo mês com mais ânimo....

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Faz um ano por esta altura...que desgraça!

OK estive fora, embora estivesse dentro. Quer dizer, já voltei de vez à santa terrinha (because crise) e embora a inspiração para a desgraça fosse tremenda, e a vontade de continuar este blogge ENOOOORME, não sabia como havia de dar a volta ao texto.

Já deixei de estar no Médio-Oriente, embora não tenha deixado de ser loura e vou mesmo continuar a escrever por aqui enquanto não sair nenhuma lei mundial a taxar esta liberdade de respirar letras para o papel. Talvez mude um bocadinho o estilo, visto que em Portugal, as situações são sempre mais à flor da pele, mas pelo ritmo dos meus neurónios pode até ser engraçado fazer um relato mordaz de uma loura de volta a este horrivel país parado e à beira-mar plantado.

O espirito de "Agosto em Lisboa" está no ar. A Baixa está cheia de turistas escaldados e o metro fervilha de emigrantes suados e de mapa na mão. Os alfacinhas que sobram (um tanto murchos pelo calor que se faz sentir) tentam dar o seu melhor na aparência, mas decididamente ficaram os mais feios e mais tristes. Nisso não há volta a dar.

Saí ontem com o Antunes e fomos jantar a um restaurante no Bairro Alto que prima pela excelente comida há anos, associada a um serviço de mesa impecável.

Logo à entrada, gostei de ter sido mimada com "Por onde é que tem andado?" por um dos donos que fez o efeito de lambidela no ego de como continuo a ser uma alfacinha de gema. Os restaurantes na sua generalidade, e sobretudo os portugueses que QUEREM vingar em qualquer ramo profissional, têm de perceber que ou têm uma memória digna de porteiro de discoteca e se lembram exactamente das pessoas que voltarão SEMPRE para continuar a fazer negócio, ou então o melhor é pagarem a alguém para o fazer por eles e IMPECÁVELMENTE, porque senão não há empresa que se aguente à crise.

Há qualquer coisa nessa área a ser feita e depressinha senão o país afunda-se e valha-me Deus que também se afunda aquela gente de talento nas suas respectivas áreas e que ainda não emigrou de vez!

Tudo isto para lembrar que Portugal não é o unico país que está em crise, nem os portugueses o povo que está a sofrer mais (acabei de confirmar que esta deve ser a parte árabe da nossa personalidade lusitana e que é tão negada e escondida).

Por favor! Há turistas que gostam da nossa hospitalidade, da nossa comida e da nossa santa terrinha e ainda bem que vêem para crer, passam cá uns dias e voltam para casa um bocadinho mais felizes! E se Portugal tiver que ser um país TOTALMENTE turistico, que seja!!! E que haja trabalho para todos!

Por isso, e como diz Raul Solnado (que não morreu, foi só tratar de um assunto ao Céu e talvez demore um bocadinho): "Façam favor de ser felizes" que a vida são dois dias...

sábado, 14 de março de 2009

DUBAI OUTRA VEZ.....NÃO PODE SER A ULTIMA

Mais uma temporada sem dizer nada, sem escrever uma linha e honestamente, pela primeira vez desde que aqui venho, com a alma pesada. A crise mundial também chegou aqui e a empresa portuguesa que me tinha dado esta oportunidade profissional vai temporariamente deixar o Médio-Oriente. Após a consternação e o desagrado de ver a missão encetada ficar sem porto seguro, esta nova experiência está "on hold"e neste momento, tento a todo o custo, encontrar qualquer solução que me faça ficar aqui, entre o deserto e a àgua salgada.
Entre uma Europa que se questiona e o Médio Oriente que arregaça mangas e mantém pensamento positivo, tento atrasar o meu regresso o mais possivel, pela curiosidade desta cultura milenar qeu tanto deixou no nosso país e que me faz repensar a minha história, a minha vida. Quero ficar para falar esta lingua tão antiga e tão própria, perceber a poesia e a humanidade da religião, misturar-me com as gentes locais.
Espero que a próxima crónica continue a ser sobre esta região.

sábado, 24 de janeiro de 2009

QATAR


2 meses sem escrever nada, mas com explicações plausiveis. Um mês em Portugal com tudo o que foram festividades natalicias e afins: comer, comer, comer, familia e amigos, matar saudades e contar um pouco da vida do lado de lá/cá, retemperar forças. Muito Inverno, muito frio, muito drama, muita emoção portuguesa....enfim, o trivial do rectângulo à beira-mar plantado.

E de repente, vésperas de partida, reuniões de última hora, stress de encaixar mais qualquer coisinha na mala minúscula (porque a grande já ficou no Dubai há muito tempo) e aquela impressão na barriga que acontece a qualquer viajante antes de partir.

Desta vez, passagem de uma semana pelo Qatar, por obrigações profissionais. Rodeada de 3 homens diferentes entre si, a todos os niveis, não sou propriamente o protótipo cultural árabe. O Raul, com quem faço equipe de trabalho no Médio Oriente, o Cadu, brasileiro ENORME realizador de cinema e o Little John, assistente de produção, que eu já conhecia de outros filmes. A missão revela-se dura, mas divertida ao mesmo tempo. Fazer uma semana de filmagens num país desconhecido, onde não conhecemos ninguém, excepto o cliente.

À chegada ao Qatar, flash sobre o país: parece os Emiratos, mas aqui só se fala árabe e pouco ou nada aparece traduzido em inglês. Não há sinalética, talão de restaurante ou outro papelinho essencial para não ficarmos sem referência nenhuma que tenha sempre por baixo letras ou números nossos... estamos MESMO num país árabe.

Os qataris são amistosos, embora tenha ouvido algumas histórias de arrepiar cabelo. Adoram o seu país que é independente, são orgulhosos do seu estilo de vida que tem o total apoio da casa real local, ajudando a vida de qualquer qatari (e muito!) desde o nascimento. Por exemplo, é-lhes concedido gratuitamente terreno para construir a casa de familia, empréstimos com condições excepcionais (quase sem juro), electricidade, água e saúde tudo de graça e bolsas de estudo para sairem para fora do Qatar e sempre com emprego garantido..... é tão parecido com Portugal!!! Ah! É verdade esqueci-me de mencionar que todos os qataris recebem parte da receitas do Estado devido ao petróleo. Isto foi-nos dito por um libanês que vive no Qatar há 3 anos.

Mas a jóia da coroa do Qatar é a famosa estação de televisão Al Jazeera, que tem a sua sede em Doha. Esta estação tem uma história curiosa (obrigada Miguel) que vale a pena contar.

A Al Jazeera – “A Ilha”, em árabe – é hoje uma rede internacional. Tem 35 escritórios espalhados pelo mundo, 1 site bilíngue e 4 canais, um deles em inglês, lançado em novembro de 2006 e transmitido em 4 países: EUA, Catar, Malásia e Inglaterra. A fama no Ocidente começou depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando a estação divulgou vídeos de Osama bin Laden, facto que lhe rende críticas até hoje.

A Al Jazeera, transmitida 24 horas por dia, tem cerca de 70 milhões de espectadores no mundo – 50 milhões no Oriente Médio. Foi nela que, pela primeira vez, um judeu israelita falou hebraico na TV árabe. A programação inclui talk shows que discutem religião, documentários sobre as mazelas dos governos vizinhos, cenas do quotidiano de guerra. Tudo isso provoca a ira de governantes, autoridades, oposicionistas. O slogan “uma opinião, outra opinião” parece irritar todos os lados da notícia.

A TV do Emir

A história da emissora que mudou o padrão mediático do Médio Oriente envolve dinheiro do petróleo, know-how britânico e árabes com vontade de fazer algo diferente. Tudo começou na Arábia Saudita, em 1994, com um acordo entre a rede inglesa BBC e a emissora saudita Orbit Communications. A idéia era realizar uma versão árabe do conteúdo internacional da BBC, até então veiculado em inglês para o Médio Oriente. Mas o acordo foi desfeito antes do previsto. O padrão editorial da rede britânica – que não admitia censura estatal – não agradou nem um pouco aos sauditas. Eles preferiram desfazer o pacto a ter de assistir a entrevistas dos opositores de seu regime na nova emissora.

Cerca de 250 profissionais árabes treinados pela BBC, que apostaram tudo na idéia de levar notícias sem censura ao público do Médio Oriente, ficaram temporariamente desempregados com o fecho do canal. Mas o fim da parceria chegou em boa hora para o ambicioso xeque Hamad bin Khalifa Al Thani, Emir do Qatar. O projecto de fazer uma rede de TV independente – a imprensa árabe sempre foi controlada pelo governo – era a maior de suas reformas. Hamad virou o Qatar a partir de 1995, quando, por meio de um golpe, tirou o seu pai do trono e tornou-se rei. No poder, concedeu direito de voto às mulheres e aboliu a figura do ministro da Informação, que censura toda notícia que circula dentro dos países árabes.

Pois é, agora imaginem onde eu estive em gravações. Dentro dos estudios da Al Jazeera! Mas no Children Channel.... só para dizer que foi aqui que eu confirmei que, de facto, tenho tido a sorte de conhecer pessoas excepcionais ao longo desta minha aventura árabe. É a melhor parte deste trabalho. A pior é mesmo dormir pouco, comer ainda menos e ficar com um feitio de cão que ninguém me atura porque só me apetece gritar de cansaço. Aliás aprendi a primeira palavra verdadeiramente interessante em árabe. É "YALLA". Claro que não se escreve assim, mas o som é este mesmo. E para acabar esta crónica, aqui vai a tradução literal: "Despacha-te! Mexe-te! Faz qualquer coisa! Vamos embora" Como podem imaginar pelo torpor local, é uma palavra que dá imenso jeito dita várias vezes seguidas.

Ma'a salaamah (Até à próxima)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Chove no Dubai....


De repente, enquanto jantávamos, começou a chover no Dubai. Sensação estranha. O Raul correu para a varanda para meter o nariz de fora (vivemos em bolhas climatizadas: carro, apartamento, reuniões em escritórios) e estava a pingar. Não é chuva, chuva, mas pronto, para aqui no minimo é tempestade! E ainda por cima, o céu está rasgado de luz com relâmpagos e trovões. E o ar cheirava quase a terra molhada...

E no mesmo instante, pensámos em Lisboa. Pensámos na familia, nos amigos, no frio que vai lá estar à nossa espera e descobrimos que esta segunda missão está a terminar. Vamos embora outra vez depois de amanhã. Outra sensação estranha. Mistura de suaudades (saudades suadas) com vontade de ficar cá mais um bocadinho, para absorver ainda mais esta zona tão diferente do nosso país, da Europa. 12 horas nos separam desde que levantamos o rabito de uma das casas até pousarmos o rabito de vez na outra casa para lá do sol posto.

Tive "piscadelas de lembranças" do que já me aconteceu aqui e voltei a confirmar que simplesmente não trocava o que se está a passar aqui por nada deste mundo. Foram:

- O dia em que pintei a mão com henna e andei uma hora com ela agarrada ao peito para não esborratar tudo;
- O dia em que nadei no meio dos peixinhos, na minha praia favorita, entre o Burj Al Arab e o Atlantis;
- A noite em que em fiquei à beira do Creek, a ver os barcos a subirem e a descerem ao longo do braço de mar que atravessa a zona velha do Dubai, onde tudo começou;
- O pôr de sol mais rápido da minha longa experiência geográfica (vi vários para tirar teimas e aqui os pôr de sóis demoram 20 minutos máximo - questões de latitude);
- O dia em que numa praia de Omã, comemos arroz picante com frango à mão, que nos tinha sido oferecido por uma familia local numa outra praia;
- O iraniano, dono da loja de especiarias, que me agarrou na mão com doçura, deu-me cerejas secas para trincar e olhou-me dentro dos olhos com um sorriso tão grande, fazendo um desconto no final das compras e repetindo: "Figo! Figo! "fazendo o jeito de quem chutava uma bola, quando soube que eramos portugueses;
- A compra do meu fato de gala indiano a uns afegãos que sorriam sem parar e não falavam outra coisa tirando Yes, yes e pouco mais;
- A simpatia de toda a gente que trabalha no nosso hotel e que tem sempre um comentário simpático quando entramos ou saímos;
E claro as eternas buzinadelas do trânsito caótico ou o esvoaçar de panos brancos ou pretos no meio das ruas, quando o vento está de feição.