Hit the world road

sábado, 28 de janeiro de 2012

Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias de banda desenhada são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todos os sonetos epoemas em verso livre são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho ímpar.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 31 de dezembro de 2011

Eu simplesmente Amo-te.

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde.

Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Felicidade...

A felicidade é um estado permanente que não parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo contínuo que não permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós próprios também mudamos e ninguém pode estar certo de amar amanhã aquilo que hoje ama. É por isso que todos os nossos projectos de felicidade nesta vida são quimeras.
Aproveitemos a alegria do espírito quando a possuímos; evitemos afastá-la por nossa culpa, mas não façamos projectos para a conservar, porque esses projectos são meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes corações contentes e de todos os objectos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma consequência natural do poder das sensações sobre os meus sentimentos. A felicidade não tem sinais exteriores; para a conhecer seria necessário ler no coração do homem feliz; mas a alegria lê-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe. Existirá algum prazer mais doce do que ver um povo entregar-se à alegria num dia festivo, e todos os corações desabrocharem aos raios expansivos do prazer que passa, rápida mas intensamente, através das nuvens da vida?


Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Semana Puzzle

Esta semana tem sido um verdadeiro puzzle.
Têm havido cortes de electricidade, de água, de internet, de trânsito, de transporte, de vida,...eu sei lá mais o quê!
Com tanto corte e sem comunicação prévia, custa mais viver e trabalhar.
Nunca se sabe o que vai acontecer na hora seguinte.
E quando há luz e não há água? Tenta-se secar o cabelo, ver um bocadinho de TV, fazem-se umas torradas, e acende-se a luz.
E quando há água e não há luz? Toma-se banho, lava-se a louça suja e alguma roupa à mão, faz-se alguma limpeza na casa.
E quando não há nada? Joga-se às cartas, lê-se (muito) e pensa-se na vida (muito, muito).
E se fôr à noite? Vai-se cedinho para a cama.
E quando o trânsito de um dia para o outro muda por causa das obras constantes? Reza-se para que não chova muito para aguentarmos o calor, o pó que vira lama e a espera e o atraso que vira stress.
E quando o dia junta tudo num dia só? Pensa-se que é preciso ter muita imaginação e muita calma quando se tem de trabalhar e se tenta viver em Luanda.
E nem sempre é fácil, mas há coisas piores.
Beijos para todos


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Conta comigo. Sempre.


Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A todos os mediocres que se sentem poderosos...e que me fazem partir de Portugal

Sempre ouvi dizer que este país "é dos políticos", "dos banqueiros", "dos grandes grupos e famílias". Dos "poderosos". Uma espécie de grupelho nebuloso e indefinido que controla as traves mestras daquilo a que chamamos edifício societário.

Mas o que é comum a toda estas pessoas para além de serem seres humanos, qual é o traço que os distingue dos demais? Para mim o problema não está na profissão, no poder que um qualquer mortal detém ou na maior ou menor influência que alguém é capaz de exercer, na figura distinta ou estatuto, no título ou na conta bancária mais recheada, no apelido pomposo desenhado no cartão de cidadão ou no cargo desempenhado. Há gente boa e válida em todos os lugares. Para mim o verdadeiro problema deste burgo começa no carácter de quem manda, de quem tem acesso a, de quem mexe os cordelinhos, de quem decide o destino das coisas e das pessoas, de quem nos governa ou de quem governa os trilhos que precisamos de percorrer.

E a verdade é que grande parte dos motores da nossa sociedade estão entregues a fracos pilotos, alguns sem carta. A falta de carácter e de honestidade de quem tem as chaves da porta que precisamos de ver entreaberta é muitas vezes evidente. O senhor cínico do elevador dos sonhos é quase sempre um calhau com olhos. Os filhos da mãe estão em todo lado, e lado a lado com as pessoas mentalmente sãs. Misturados, escondidos nos cargos intermédios da podridão.

Amigos de amigos de amigos. Ratos nojentos. Incapazes intelectuais que se alimentam do lixo que os próprios produzem. Na política, nas empresas, na imprensa, na secretária mesmo ao lado (podem olhar) ou no café. E o mais chato é que neste país a meritocracia é pouco mais do que uma palavrinha que consta do dicionário. O mérito e a distinção são geralmente controlados por um qualquer infeliz que na 4ª classe passava a vida entre as barrelas no balneário e as idas ao poste intermináveis no campo de jogos e que, por esse facto, por ter as bolinhas amassadas e recalcamentos inultrapassáveis, vivem a vida numa verdadeira intifada contra quem luta por ser melhor, com medo permanente das sombras e da diferença.

Lambem o rabinho a quem lhes convém e lixam quem não lhes convém. E perdem-se assim pessoas, projectos e ideias válidas. Neste país para alguém conseguir ser o que ambiciona tem de ser cem vezes mais persistente, duzentas vezes mais forte e trezentas vezes mais honesto do que esta corja. E mesmo assim a maioria desiste e parte. Nota a quem se sentir visado por estas minhas palavras: sois uns bandalhos sem alma ou vergonha. E no dia em que este país mudar e deixar de premiar a mediocridade, o vosso reinado termina à mesma velocidade que começou.E nesse dia quero estar no camarote a assistir.

In Portugal: O País dos filhos da mãe por Tiago Mesquita

domingo, 14 de agosto de 2011

O machismo português e as traições amorosas por Miguel Esteves Cardoso

Na gíria portuguesa, os palitos são a versão económica, e mais moderna, dos cornos. Os cornos, à semelhança do que aconteceu com os automóveis e os computadores, tornaram-se demasiado volumosos e pesados para as exigências do homem de hoje. Daí a crescente popularidade dos mais portáteis e menos onerosos palitos. Contudo, visto que se vive presentemente um período de transição, em que os novos palitos ainda se vêem lado a lado com os tradicionais cornos, continuam a existir algumas sobreposições. Uma delas, herdada do antigamente, deve-se ao facto dos palitos não se saldarem numa diminuição proporcional de sofrimento. Ou seja, não dão uma mera dor de palito — dão à mesma, incontrovertivelmente, dor de corno. Não é mais carinhoso, por isso, pôr os «palitos» a alguém — continua a ser exactamente o mesmo que pôr os outros.

Tudo isto vem a propósito da forma atípica, entre os povos latinos, que assume o machismo português. Não se trata do machismo triunfalmente dominador, género «Aqui quem manda sou eu!», do brutamontes que não dá satisfações à mulher. Não — o machismo português, imortalizado pelo fado «Não venhas tarde», é um machismo apologético, todo «desculpa lá ó Mafalda», que alcança os seus objectivos de uma maneira mais eficaz. É, de facto, o machismo que, não só dá satisfações, como vive delas.

O machismo português é o machismo, não da força masculina, mas da fraqueza. Não consiste no homem armar-se em agressor, mas em vítima. O logro é este: o homem apresenta-se sempre à mulher como vítima da natureza «de homem», dele. Ser homem, para o machista português, é ser essencialmente fraco. É um não-ser-capaz de resistir às tentações; um envergonhado «já sabes como é, filha» que serve para legitimar todos os privilégios de que goza (aos quais chama «deslizes»). À mulher não se admitem estes abusos — os copos, as entradas às tantas da manhã, os romances — porque o homem português considera a mulher um ser superior. Como é superior — mais forte, mais séria, mais responsável, mais ajuizada — não tem, muito simplesmente, direito a nada.

O homem trata-a como se trata um deus. Julga que ela sabe tudo e, mesmo quando ele lhe mente, sabe que ela não se convence. Pensa também que ele pode tudo e é daqui que vem o medo enorme que lhe tem. E, tal como se faz com um deus, ele peca e pede perdão, mas sem perdoar em troca — porque um deus, por definição, não pode pecar. Se acaso uma mulher não corresponde a este comportamento divino, é logo considerada uma desgraçada, uma meretriz, uma sem-vergonha. Em suma: no fundo, uma criatura tão baixa e desprezível como um homem.

Logo, é a inferioridade do homem — infinitamente confessada, declarada e propagandeada — que lhe impõe o direito de pecar e ser perdoado, e a superioridade da mulher que lhe confere a obrigação de perdoar. O homem, no machismo português, é pouco mais que uma pilha imponente e irresistível de vulnerabilidades. As outras mulheres atraem-no sempre contra vontade, e ele, coitado, não se consegue defender e vai-se instantaneamente abaixo. Como cantava o Carlos Ramos «Tu sabes bem que eu vou para outra mulher, que eu só faço o que ela quer...». A mulher, cheia de uma compreensão indistinguível da santidade, vê-o da janela, coração a sofrer de amor e de piedade, e apenas lhe pede («com carinho») que não venha tarde, «sabendo que ele vem sempre mais tarde». É este o machismo estritamente português, a meio-caminho entre o «Desculpem qualquer coisinha» e o «Era uma vez um rapaz». Nunca diz, à castelhana, «Quero e posso!»; nem disfarça, à italiana, dizendo «Posso mas não quero». Não. Diz, muito à portuguesa «Não quero, mas o que é que tu queres?, é o que posso...». O homem português nunca tem culpa. Arrepende-se sempre, mas não tem culpa porque não consegue deixar de fazer (por muito que não tente) as coisas que lhe apetece imenso fazer. A mulher, em contrapartida, tem quase sempre culpa. Tem, por exemplo, a culpa de atrair o homem, não porque o queira atrair (o querer ou não é irrelevante), mas, simplesmente, porque é mulher, e ele é homem, e não há absolutamente nada a fazer...

O machismo português não é afirmativo e orgulhoso frente à mulher. É um machismo conjuntivo — «Eu bem gostaria de ser fiel, mas...», ou «Eu bem gostaria de passar mais tempo em casa, mas...», ou ainda «Eu bem gostaria de não ser como sou, mas...». É esse «mas» que torna o machismo português diferente — não é tanto de macho como de «mas», não é tanto um autêntico machismo como um masismo. Ele não é senhor do seu destino, como ela é do dela (e do dele). As coisas acontecem-lhe, ele bem tentou; foi uma coisa que lhe deu, ele nem sequer deu por ela, e, pronto, «o que é que tu queres, filha?», aconteceu...

A relação entre o homem português e a mulher é vista (pelo homem), como a relação que tem cada um com a sua consciência. E, ao passo que cada um pode andar na boa vai-ela (e depois penitenciar-se), o mesmo não se imagina (nem consente!) à consciência. E, o mais engraçado de tudo, é que a mulher que «sabe tudo», até isto sabe. Ou seja: sabe perfeitamente que esta do «Tu sabes bem...» é pouco mais que uma excelente treta que os homens propagam para poderem pensar que se divertem mais do que as mulheres. O que torna a mulher portuguesa ainda mais superior. Claro.

Tudo isto para regressar, sem dor, à questão dos palitos. A tese central, criação única do machismo português, é esta: É muito fácil pôr os palitos a um homem (basta a mulher olhar para outro), mas é quase impossível pôr os palitos a uma mulher (porque nunca se consegue enganar a consciência). Um homem pode ser, por dá-cá-aquela-palha, um «corno manso», o que é muito pior que ser um corno selvagem ou só semicivilizado. Mas não existe, na língua, correspondência para o sexo feminino. Os palitos são uma coisa terrível que as mulheres podem pôr aos homens mesmo sem chegar a pô-los; mas que os homens nunca podem pôr às mulheres, por muito que lhos ponham. Nesta vantajosa lógica, bastante mais complexa e respeitosa do que aquela que anima outros machismos menos atlânticos, se encontra a alegria e a tristeza do autêntico macho português — aquele que vem sempre mais tarde, mas cada vez mais cabisbaixo.